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Diário de Gabriela (Parte 1)

  • Foto do escritor: Judith
    Judith
  • 26 de mar. de 2024
  • 4 min de leitura

Atualizado: 19 de mai. de 2024




Assim que o avião pousou na pista, o meu coração afundou-se e engoli em seco, fechando os olhos na esperança inútil de me acalmar. 

Podia tentar convencer-me de que o que estava a sentir era uma ansiedade natural por estar a regressar a casa, ao meu torrão.

No fundo, era medo. Medo de ter cometido um erro, um erro cujas conseqências aguardava-me agora, após descer deste avião.

Quando emigrei, fi-lo porque senti que não tinha opção. Com uma criança de um ano para criar, sem educação para além dos dois primeiros anos do liceu, não havia muito que pudesse fazer. Senti-me encurralada, pelo que ir para fora à cata de uma vida não seria nada que milhares de mulheres e homens não tivessem já feito. 

Que a minha própria mãe tinha feito. 

Ninguém questionou.

Olhando para trás, penso na loucura de uma quase criança de 20 anos, mulher, mãe de um bebé, com escolaridade mínima, emigrar para um país tão longínquo para ir trabalhar e ninguém questionar. Sem dinheiro, sem falar a língua.

São as loucuras permitidas. Ações, decisões e impulsos objetivamente insanos que em determinadas realidades são consideradas escolhas acertadas, naturais até.

Desta terra de onde  sou, emigrar não é só expectável, como desejável, ganhando sobre qualquer outra opção de vida. Não ter dinheiro, um detalhe. Faz-se uma vaquinha para pelo menos a viagem. Não ter escolaridade ou falar a língua? Há trabalho para todo o tipo de gente. Mulher, sozinha? Conhece-se uma tia que te pode acolher nos primeiros tempos. Deixar o filho para trás? Sacrifícios que se devem fazer para garantir um futuro. Não querer deixar a avó ou a mãe? Cada qual com o seu destino, não devemos prender-nos à vida dos outros. Saudades do lugar onde se cresceu, onde nos sentimos seguros? Frescura, pode-se sempre voltar.

Emigrar, ganha sempre. A promessa do desconhecido, a ideia da Europa civilizada, evoluída e rica, ganha sempre.

Eu, como tantas outras, apesar das dúvidas, apesar da vontade de me deixar estar no meu canto e criar o meu filho com um trabalho qualquer, parti. A ideia da terra prometida é poderosa.

A promessa de liberdade que vem com as oportunidades enlaça-nos e se apropria dos nossos desejos, dos nossos medos e nossas angústias, iluminando-os com esperança infinita.


A Europa era um lugar mas acima de tudo uma ideia e um imaginário possível. Um imaginário que eu partilhava com todos e que, em boa verdade, todos partilhavam comigo . imaginário que adotei, vertendo nele as minhas penas e a estreiteza das minhas escolhas. 


Num ato de pretenso bom discernimento e com uma claque altamente encorajadora, parti. Aterrei sem filho, sem namorado, sem bagagem de roupa ou de vida mas com um vazio no peito e um nó na garganta que me acompanharia por 15 anos.

Coisa estranha esta de concretizar fantasias. A partir do momento que a imaginação desce ao mundo real, ela subitamente endossa as virtudes do mesmo. Complica-se, estrema-se, torna-se ambígua e passa a precisar de balança para se ponderar. A fantasia quando se realiza, ganha propriedades da vida real. Precisa ser descrita, questionada, avaliada e realizada. E quanto mais ela assenta na realidade, mais o estado em que outrora estivemos, e contra a qual ela se sobrepôs, se torna depósito de uma nova fantasia.

Para mim, a fantasia da desconhecida Europa muito rapidamente se transformou na conhecida armadilha de onde fugi, somente mais sofisticada.


E, a realidade da qual tanto me quis afastar, tornou-se a minha nova fantasia. 


Quinze anos e decidi perseguir essa fantasia, a do meu retorno. Daí me encontrar neste avião, de volta. Os meus olhos percorrem as pessoas que mal podem esperar para se levantar e sair. Eu, por outra, e ao contrário de quando parti, deixo-me ficar. Observo enquanto as pessoas vão saindo, entrando na luz ofuscante do lado de fora. Sem me aperceber, a minha atenção paira nos raios do sol que iluminam a parte da frente do avião. Apesar de estar a meio, agora que está quase vazio, sinto uma leve brisa quente chegar à minha face. Com ela vem um cheiro suave de terra e mar, um cheiro que não sentia há quinze anos. Sem me aperceber, a luz, a brisa e o cheiro despertam o meu corpo para o movimento. Levanto-me, segurando com força a minha mala. Preciso do ar que está lá fora e do calor para me aquecer o corpo agora gélido. Preciso de ar, mas tenho medo de me sufocar caso esse ar, essa luz e esse calor não sejam o que a minha consciência imaginou. Ainda assim, continuo a caminhar para a entrada e respiro uma golfada de ar antes de sair.  Por momentos, cega-me o sol brilhante. Lentamente, como uma lente que se ajusta, vislumbro o azul e o castanho torrado à minha frente. Todos os tons e sub-tons imagináveis de azul e castanho mas ainda assim, azul e castanho por todo o lado.

Respiro fundo e sussurro para mim própria "Coragem, Gabriela!".


Continua...





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